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Publicado por abusufyen em Abril 11, 2008
Perspectivas para os movimentos estudantis atuais, por Bruno Felice A. Perrella
Perspectivas para os movimentos estudantis atuais.
Por Bruno Perrella. [1]
Passou esses dias na televisão um documentário muito interessante falando sobre a UNE (União Nacional do Estudante). Este documentário continha imagens das manifestações, discursos, ações, as reuniões, e também os depoimentos, feitos hoje em dia, dos presidentes da UNE.
Eu sempre afirmei minha decepção com a classe estudantil brasileira atual. E também, sempre afirmei que por essa minha exaltação política, por esse meu questionamento, por toda a minha sede de manifestações, eu “invejo” os estudantes ativos daquela época.
A UNE foi fundada em 1937[2] e através de reuniões e congressos intercursos, debatiam as perspectivas para o Brasil. Tinham, no inicio, um caráter anti-nazista o que refletiu na criação de um nacionalismo saudável e progressista.
A partir de 1964, com a tomada do poder pelos militares, as ações da UNE foram colocadas em xeque pelo governo, dado a importância que o movimento tinha adquirido, como também, o seu grande poder de formadora de opinião e questionadora da sociedade.
Assim, os militares proibiram as reuniões da UNE, invadindo, prendendo, torturando, saqueando e vigiando as universidades e os intelectuais. Mesmo com toda esta repressão, a UNE continuou com seus encontros, ainda que secretos e ainda tendo coragem de promover passeatas e manifestação.
A UNE sobreviveu a ditadura militar, e também marcou presença no movimento de Diretas Já, apoiando a candidatura de Tancredo Neves à Presidência da República. Assim como também, a UNE foi uma das primeiras entidades em 1992 a fazer manifestações a favor do Impeachment do presidente Collor, através do movimento Caras-Pintadas. Mas é no governo de Fernando Henrique que se presencia certa diminuição nas ações da UNE, que foi contra as privatizações e defendendo o ensino público no país.
No tempo de Fernando Henrique ainda presenciamos esses resquícios das manifestações estudantis, mas e hoje no governo de Luis Inácio Lula da Silva? Aonde que se encontra a sociedade?
Um dos antigos presidentes da UNE, que se pronunciou no tal documentário, (porem me fugiu o nome dele), afirma algo muito interessante. Hoje em dia, um dos motivos apontados para esta ausência da opinião estudantil é a ausência de um corpo físico sempre presente e atuante como a ditadura foi. Ele afirma que a falta de interesse na participação política sempre existiu, assim como hoje, porém antes a ditadura mostrava-se de corpo presente quase que todos os dias, portanto não tinha como se esquecer, como tentar driblar, o fato de que foram terríveis as ações dos militares, principalmente contra os estudantes.
José Serra, que também foi presidente da UNE, afirma outro motivo. Serra afirma que hoje a UNE está mais ligada a partidos políticos, e isso de certa forma restringe suas ações. Ele não esta julgando, esta só comentando o fato, de que antigamente a UNE era mais independente do governo.
Eu concordo mais com o primeiro, porem não inteiramente. De fato, antes a participação era maior pelo corpo presente da ditadura, porem a força da UNE era tamanha que em seus congressos, vinham estudantes de todo o Brasil. E não eram pequenas caravanas, eram grandes parcelas representativas de cada universidade. Não há como negar, também, que antes a participação política dos estudantes era infinitamente maior. Eles lutavam com paixão, tinham um compromisso e não o descomprimiriam.
Hoje isso já não existe mais, pelo menos desta forma. Não existe nenhuma participação, comprometimento e responsabilidade por parte dos jovens estudantes, claro que existem muitos que ainda se salvam. Mas hoje em dia com essa festa toda que acontece no Senado[3], especificamente, hoje, com o presidente do Senado o Renan Calheiros, com todo o esquema de mensalão[4] que foi denunciado, com todo o esquema de corrupção que sabemos que existe, os estudantes não se manifestam, não se organizam. Vivem seus dias com rotinas, parecendo não se importar com a política nacional.
Isso é preocupante, pois vemos os jovens cada dia que passa mais alienados, mais envolvidos com a criminalidade e tráfico, e se esquecendo da nobre causa política, se esquecendo da excelência nos debates e opiniões que esta classe carrega.
Uma das últimas manifestações que aconteceu que eu me lembro, foi o “Fora Bush” [5], quando um grande número de pessoas se manifestaram na Avenida Paulista quando o Presidente dos Estados Unidos veio ao Brasil. Foi uma forma até violenta, parecendo um bando de vândalos para uma causa até que nobre, mas só seria realmente, se todos soubessem o porquê de estar ali. A Rede Globo fez diversas entrevistas com os manifestantes, a maioria não sabia o porquê da manifestação, e alguns não sabiam nem quem era o Bush.
Chegamos a um estado alarmante de alienação política, onde que os movimentos sociais perderam espaço por simples desinteresse das classes, como por exemplo, a classe estudantil.
Eu busco acreditar que hoje, pela agilidade de informações, internet e esses fatores, o tempo dos brasileiros está muito restrito. Uma espécie de “Manifestar ou Trabalhar”, o que faz bastante sentido na vida do brasileiro moderno.
Mas será que não vêm os noticiários? Será que não lêem jornais? Será que não se preocupam no futuro do país? E esse descomprometimento é, de certa forma, um caso especifico do Brasil, pois a França, por exemplo, retratou em 2006 as manifestações dos jovens contra as novas leis para o primeiro emprego[6].
Acredito que esta falta de mobilização é justamente o que o presidente da UNE disse. Fazendo um paralelo, hoje, vivemos em uma democracia, nós elegemos os políticos e eles cumprem suas promessas, em tese. Sendo assim, não temos de corpo presente um inimigo tão agressivo quanto a ditadura. Sim bem verdade isso, porem como afirmou Lucia Hipólito, a analista político da radio CBN, cerca de 20% dos congressistas brasileiros não receberam o voto direto da sociedade, mas sim o voto da legenda partidária. Isso é alarmante. Sim, não temos mais o corpo presente autoritário da ditadura, mas temos a “cueca e o mensalão”. Só esse fato de corrupção não é um motivo suficiente para uma mobilização? Para uma pressão por parte da sociedade?
Entretanto, a verdadeira pergunta é como que chegamos neste estágio tão passivo da sociedade? Como que engolimos tantos sapos da política brasileira. Se não basta o mensalão, a corrupção, a festa no Senado, as licitações malfeitas, os altíssimos impostos, se isso não basta, ainda temos o fato de que o Brasil cresceu cerca de 2,5% em 2005[7] e 2,9% em 2006[8], perdendo na América Latina somente para o Haiti, que esta em guerra civil.
Por isso afirmei anteriormente minha “inveja” pelas manifestações estudantis de outra época. Toda essa calmaria política da sociedade desanima qualquer cabeça pensante do meio. Hoje, a falta de comprometimento que invade as pessoas é tamanha, a falta de opinião formada, é algo que deveriam assustar os brasileiros. Há uma “doença” tomando conta da sociedade brasileira, e o individualismo é um dos sintomas.
Tal doença é o esquecimento. A qual conduz o país à este circo que vivemos. O povo brasileiro atarefado, tendo que se desdobrar para seguir no emprego, tendo que permanecer vivo a cada dia, fugindo dos roubos e seqüestros, se esqueceu dessa honrosa causa política. Ou ainda, talvez, quem sabe olhando por um lado mais pessimista, a grande parcela do povo brasileiro tenha, na verdade, se vendido para os “bolsas-auxilios” que o governo, sabiamente, esta distribuindo.
É uma continuidade de fatos que fica impossível de prever até onde vai chegar. Impossível de prever até quando a sociedade vai trocar sua participação por esmola. Eu espero que acabe bem esta historia, e que possamos, enquanto estudantes, retomar essa gloriosa fama de participação política e fazer voltar a honrosa denominação de ator político antes que seja tarde.
Mas em todo o caso, hoje os movimentos estudantis estão apagados, e nada esta sendo feito para melhorar a consciência dos jovens para a política. Algo que deveria começar dentro de casa, não esta acontecendo, e gera assim esse descompasso atual, criando uma enorme distancia entre jovem e a política, sufocando cada vez mais os movimentos. E não digo movimentos partidários, e nem podem ser, mas sim, aqueles saudosos movimentos patrióticos, os movimentos pró-Brasil.
É muito necessário que olhemos para o passado e aprendamos algo com as ações desses movimentos. Não podemos desonrar desta maneira todo o histórico do movimento estudantil, e nos tornarmos tão passivos hoje em dia. Falta de organização não pode ser uma desculpa, porque nos antigos movimentos eram pouco organizados. É importante aprender com a historia, e ver que a partir desses movimentos o rumo da historia mudou.
Porque se nem os estudantes se manifestarem, e a sociedade permanecer nesse silêncio infeliz, os políticos continuarão abusando, continuarão em desrespeito com a sociedade e se sentindo no paraíso, quero dizer, em Brasília.
Bruno Felice Araújo Perrella.
São Paulo, 6 de setembro de 2007
[1] Bruno Felice Araújo Perrella é estudante de graduação de Relações Internacionais e Coordenador Presidente do Grupo de Estudos e Debates de Relações Internacionais da Faculdade Rio Branco, G.E.D.R.I. (brunoperrella@yahoo.com.br ; www.artigosbrunoperrella.wordpress.com)